O candidato à Presidência da República Flávio
Bolsonaro (PL-RJ)
integrou a defesa de cinco policiais militares acusados de cinco mortes – três
pessoas inocentes e dois homens apontados como traficantes – em ação no
Superior Tribunal de Justiça (STJ).
Já senador, ele atuou em recursos a favor do PM
acusado de matar
a menina Ana Clara Machado, de 5 anos, em Niterói, em 2021, e de quatro
acusados de matar
quatro homens durante uma operação no Vidigal, na Zona Sul do Rio, em
janeiro de 2020.
Não há restrição legal à atuação de um senador em
casos criminais. Todo integrante do legislativo é proibido de advogar se for
integrante da mesa diretora do Senado, o que não era o caso de Flávio, além de
não poder atuar em casos envolvendo:
Pessoas jurídicas de direito público (União, estados,
Distrito Federal, municípios e autarquias);
Empresas públicas, sociedades de economia mista;
Empresas concessionárias ou permissionárias de serviço
público.
Quatro mortes no Vidigal
No caso do Vidigal, Flávio aparece entre os advogados
dos agentes no STJ, que em 2025 manteve a decisão que impediu o julgamento dos
réus pelo júri popular. O caso foi revelado pelo jornal O Globo, e o g1 teve
acesso à movimentação processual.
O Ministério Público do Rio tentou restabelecer o
julgamento dos policiais, mas teve o recurso negado pela Quinta Turma do STJ.
Em nota, o MPRJ afirmou que interpôs um recurso no Supremo Tribunal Federal e
aguarda o julgamento do tema.
Segundo a denúncia do Ministério Público, os agentes
se posicionaram no alto de um imóvel e dispararam contra as vítimas sem que
houvesse confronto na comunidade naquele momento. Os policiais afirmaram que
trocaram tiros com criminosos.
Entre os mortos estavam o porteiro Claudio Henrique
Nascimento de Oliveira, de 24 anos, e do entregador de supermercado Marcos
Guimarães da Silva, de 51. As famílias dos dois afirmaram que eles não tinham
envolvimento com o tráfico e foram
executados.
O que aconteceu no Vidigal
A operação deixou quatro mortos e uma pessoa ferida.
Além de Claudio e Marcos, morreram Ivanildo Moura de Souza e Douglas Rafael
Barros Assunção, apontados como integrantes do tráfico.
Segundo a família de Claudio, o porteiro havia acabado
de voltar da praia com os parentes. Ele descia uma viela carregando um galão de
água para a casa da sogra quando foi baleado.
A investigação da Polícia Civil concluiu que os
disparos partiram de um imóvel acima do local onde as vítimas foram atingidas.
Segundo informações publicadas pelo Globo, os laudos apontaram trajetórias de
cima para baixo, e uma moradora relatou que policiais haviam ocupado um
apartamento antes dos tiros.
Os quatro acusados são Pedro Jeremias Lemos Pinheiro,
Victor Barcelleiro Batista, Ricardo de Moraes Mattos e Rafael Nascimento Rosa.
Os agentes disseram em depoimento que trocaram tiros
com criminosos em um beco e encontraram os quatro homens feridos em seguida. As
vítimas foram levadas ao Hospital Municipal Miguel Couto, onde chegaram mortas.
O Ministério Público denunciou os quatro policiais por
homicídio qualificado. O juiz Gustavo Gomes Kalil, da 4ª Vara Criminal da
Capital, decretou a prisão preventiva dos agentes e, em 2022, determinou que
fossem julgados pelo Tribunal do Júri.
Como o caso chegou ao STJ
A defesa recorreu ao Tribunal de Justiça do Rio
(TJRJ), que cancelou o envio dos policiais a júri popular. Essa decisão é
chamada de despronúncia.
Ao analisar o caso, os desembargadores entenderam que
não havia indícios mínimos de execução que justificassem submeter os agentes ao
julgamento pelos jurados. Segundo o acórdão, os policiais trocaram tiros com
pessoas armadas.
O Ministério Público levou a discussão ao STJ para
tentar restabelecer o júri. Foi nessa etapa que Flávio passou a integrar a
equipe de defesa dos quatro PMs.
A Quinta Turma manteve a decisão do TJRJ. No
julgamento, o relator, ministro Reynaldo Soares da Fonseca, apontou a
insuficiência de elementos colhidos apenas na investigação policial e de
testemunhos indiretos, sem indicação clara da origem das informações, para
sustentar o envio dos acusados ao júri.
Flávio também teve atuação, em 2022, no processo do
policial militar Bruno Delaroli Dias, acusado de matar Ana Clara Machado, de 5
anos, durante uma operação na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, em 2021.
Segundo a denúncia do Ministério Público, Bruno
disparou com um fuzil calibre 7,62 em direção a uma área com grande circulação
de moradores, inclusive crianças. A acusação é de homicídio qualificado com
dolo eventual — quando alguém assume o risco de matar.
Em decisão no processo, a juíza Nearis dos Santos
afirmou que não havia sinais de disparos de traficantes antes dos tiros do
policial.
Bruno negou que o disparo que matou a menina tenha
partido de sua arma. Em interrogatório, afirmou que fez apenas dois disparos
para revidar uma agressão e que não atirou na direção em que Ana Clara estava.
Disse também que ajudou a socorrer a criança.
Após a Justiça do Rio determinar o júri popular, a
defesa recorreu ao STJ. Flávio integrou a equipe de advogados nessa fase.
Em abril de 2024, a Quinta Turma rejeitou o recurso
por 3 votos a 2. Novas tentativas da defesa no STJ e no Supremo Tribunal
Federal não reverteram o envio do policial a julgamento.
A decisão que determinou o júri se tornou definitiva
em 2025. Bruno responde em liberdade e será julgado em maio de 2027.