Ele havia pedido que cantassem e dançassem em seu funeral, e foi assim que foi o adeus ao cacique Messias Kokama nesta quinta-feira.
O hino nacional brasileiro foi cantado em Tikuna, uma das 14 línguas indígenas faladas em seu assentamento nos arredores de Manaus, onde 2.500 descendentes de 35 etnias diferentes da Amazônia vivem.
O cacique Kokama, da comunidade Kokama, tinha 53 anos e morreu na quarta-feira de colapso respiratório e por outras complicações causadas pela Covid-19 após uma semana de internação no principal hospital de Manaus.
"Perdemos um cacique corajoso, que lutou para estabelecer um modelo de comunidade indígena com educação de qualidade e serviços que nos são negados", disse Vanderlécia Ortega, enfermeira que monitora seus vizinhos para sintomas do coronavírus e conseguiu uma ambulância para levar Kokama ao hospital.
O número crescente de casos de coronavírus sobrecarregou os hospitais da maior cidade do Amazonas e os mortos estão sendo enterrados em covas coletivas e com enterros com a presença de não mais do que dois parentes.
Como líder do assentamento chamado Parque das Tribos, as autoridades municipais excepcionalmente permitiram que sua comunidade se reunisse para prestar homenagem a Kokama após um velório.
Seu caixão simples, embrulhado em película aderente, foi colocado na escola ainda não finalizada que ele lutou para construir e que não viveu para ver a inauguração. A comunidade já concordou em batizar a escola com o nome do cacique.
A etnia Kokama, uma das maiores da Amazônia, habita áreas da floresta no Peru, Colômbia e no Brasil, nas partes superiores do rio Amazonas, e muitos migraram para Manaus em busca de uma vida melhor.
Mas, na maioria das vezes, acabam vivendo na pobreza às margens da sociedade em Manaus, com pouco acesso à saúde pública, porque o serviço federal de saúde indígena não os trata quando saem de suas terras e se mudam para áreas urbanas.
"Graças ao cacique Kokama, temos um lugar aqui onde podemos manter nossa cultura, nossas canções e danças sagradas e fazer nossa farinha de mandioca e nossas artes e ofícios", disse a enfermeira Vanda, como é conhecida em sua comunidade. [
"Continuaremos lutando para tornar seu sonho realidade."
(Reportagem de Bruno Kelly; texto de Anthony Boadle)
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